11 de jun de 2010

Fabliaux - Literatura como narrativa do cotidiano


Para um historiador qualquer fonte de pesquisa pode trazer à luz fatos, muitas vezes tido como corriqueiro, mas com grande potencial para uma narrativa cotidiana.
Os fabliaux foram redigidos entre os séculos XIII e XIV, período em que nasce a literatura de narrativa curta, tratando-se de estórias cotidianas que traziam, em seu conteúdo a causa e a conseqüência, um exemplo a seguir, uma moral da história para instruir e divertir.
Nas estórias ocorriam situações próximas das reais, e este era o grande atrativo dos fabliaux, assim, durante a leitura é possível identificar aspectos da mentalidade e dos costumes do momento, sendo as estórias provavelmente contadas em ambientes domésticos ou públicos, sugerem que tanto a linguagem quanto as situações eram naturalmente aceitas.
A igreja pregava regras de conduta de como deveria ser a relação dos corpos, masculino e feminino, insinuando que a mulher se difere do homem em seu poder de sedução, assim deveria ser controlada e educada para subserviência masculina, detentora da ordem social.
Porém os fabliaux nos mostram que na intimidade a mulher era muito mais atuante e dissimulada, como na estória em que a donzela engana o pai, fingindo odiar homens e engana o jovem servo se fingindo de donzela, mas seduzindo o mesmo.
Um relato verdadeiro foi transcrito pelo futuro Papa Bento XII de uma camponesa de vinte e dois anos que confessa, provavelmente sob pressão, suas relações extraconjugais, consentidas pelo marido, com um padre primo de sua mãe. Para a camponesa não era pecado porque tanto ela quanto o padre queriam.
Fato é que a grande maioria das mulheres eram castigadas e maltratadas pelos maridos. A recomendação se fazia quanto à cura das chagas abertas.
Um exemplo se dá em um fabliaux com relação à violência sofrida pela mulher: A esposa, por prazer, contra diz as ordens do marido e este ”...com bastão de espinhos castigou-a tanto que quase a matou. Ela ficou deitada por mais de três meses sem poder sentar a mesa. E lá o conde a fez sarar”.


A donzela que não podia ouvir falar de foder


Era uma vez uma donzela muito orgulhosa e rebelde. Se ela ouvisse alguém “falar de foder” ou algo semelhante, ficava com um ar muito ofendido. Ela era a única filha de um bom homem, um rico camponês que não tinha nenhum servo em sua casa porque a moça não suportava ouvir esse tipo de conversa típica de servos. Ela “...nunca poderia suportar / que um servo falasse de foder / de caralho, colhões ou coisa semelhante” (Fabliaux, 1997: 63).
Um belo dia, um jovem velhaco de nome David chegou àquela aldeia e ouviu falar da filha que odiava os homens. Decidiu então conferir a curiosa estória, oferecendo seus préstimos: disse que sabia lavrar, semear, debulhar o trigo e peneirar. O camponês agradeceu, mas respondeu que tinha uma filha que sentia tanta náusea das coisas obscenas que os homens conversam que não poderia aceitar sua oferta. David fingiu ser um homem temente a Deus e clamou pelo Espírito Santo. Ao ouvir suas palavras, a filha do rico camponês pediu ao pai que contratasse o rapaz, pois ele compartilhava suas idéias.
Houve então uma grande festa para comemorar a contratação do “servo beato”. Quando chegou a hora de dormir, o bronco camponês perguntou à filha onde David descansaria: “Senhor, se isso vos agrada / ele pode dormir comigo / ele parece ser de confiança / e ter estado em casas nobres” (Fabliaux, 1997: 67).
O ingênuo pai concordou. A donzela era muito graciosa e bela, e o servo, matreiro, logo colocou sua mão direita nos alvos seios da moça, depois em seu ventre e seu sexo, sempre perguntando à donzela o que era aquilo que tocava: “David desceu a mão / direto à fenda, sob o ventre / onde o pau entra no corpo / e sentiu os pêlos que despontavam / ainda macios e suaves (...)”. E perguntou:
Por boa fé, senhora, disse David (...)
o que é isto no meio do prado
esta fossa suave e plena?
Disse ela: é a minha fonte
que ainda não brotou.
E o que é isto aqui ao lado /
disse David, nesta guarita?
É o tocador de trompa que a guarda
responde a jovem, verdadeiramente
se um bicho entrasse no meu prado
para beber na fonte clara
o vigia tocava logo o corno
para lhe fazer vergonha e medo. (
Fabliaux, 1997: 68)
A seguir, a jovem virgem decidiu ousar e passou a tomar a iniciativa, apalpando igualmente o servo beato. O poema compara o pênis a um potro e os testículos a dois marechais. A donzela pede então que o belo potro do jovem paste em seu prado. David teme que o “tocador de trompa” da moça – provavelmente uma metáfora ao clitóris feminino – faça barulho, isto é, que a jovem grite de dor e prazer. Ela responde: “Se ele disser mal / batê-lo-ão os marechais. / David responde: Muito bem dito.”
E assim a jovem virgem e falsa pudica “foi derrubada quatro vezes”, “...e se o tocador de corno troou / foi batido pelos dois gêmeos / Com esta palavra termina o fabliau.” (Fabliaux, 1997: 70)


Um comentário:

João Pedro disse...

O texto do nosso trabalho....hehhehe..... só faltou a imagem.... e que imagem hein.... feita em plena era medieval e em frente de uma catedral.... http://www.ricardocosta.com/pub/images/fabliaux_arquivos/fabliaux1.JPG