27 de out de 2009

TCC de História - A Comarca Penapolense.

Segundo a historiadora Sandra Jatahy Pesavento, até aproximadamente a década de 80 a história do Brasil era contada de forma totalitária dentro de uma visão marxista focada no desenvolvimento do capitalismo de uma Nação escravocrata (visão esta interrompida durante o processo do regime militar), ou então pelo método da Escola dos Annales onde sua cientificidade era baseada na coleta de arquivos organizados sequencialmente, e por isso foi criticada e acusada de reduzir a história a uma narrativa sem capacidade de explicar os fenômenos.
Na virada da década de 80 para a década de 90, estas formas de “fazer história” foram questionadas e quem mais sofreu foi o marxismo, pois ocorria a queda do Muro de Berlim e o socialismo, com sua forma simples de ser colocada em prática, deixava em dúvidas se somente a luta de classes poderia desvendar o discorrer dos fatos históricos. Cada localidade tem seu contexto e a história de cada contexto era ignorada.
Na Europa uma nova forma de analise surgia como a antropologia, a etnologia e a psicanálise de Freud, uma nova óptica para representar o mundo. Intelectuais e artistas começam a pintar o cotidiano analisando as mudanças.
O surgimento de novos agentes sociais levaram historiadores dos Annales e historiadores ingleses neo marxistas observar a prática e as experiências traduziam-se em valores, idéias e conceitos sobre o mundo.
As mudanças sociais, econômicas e culturais começaram a ser levada em conta como um conjunto de fatores capazes de traduzir a história local naquele momento, contribuindo para um contexto histórico geral.
Mas se pensarmos com mais cuidado, não são as pessoas simples que detém as condições materiais para exprimir a realidade do momento e sim filósofos, políticos, artistas, enfim uma série de pessoas de origem burguesa ou com acesso a essa burguesia, que representavam o que viam de acordo com seu meio, influenciado por ele, portanto, “A representação social não é uma cópia do real, mas uma construção feita a partir dele“ (Michael Foucault).
Fato é que as representações dizem mais do que aquilo que mostram ou enunciam , carregam sentidos ocultos, que construídos social e historicamente , se internalizam no inconsciente coletivo e se apresentam como naturais, dispensando reflexão, substituindo a realidade que representam construindo um mundo paralelo do qual as pessoas passam a viver.
A sensibilidade começa a ser levada em conta quando se exprime em ritos, palavras e imagens, em materialidade de espaço construído.
Dentro destes conceitos de representação social e micro história compondo a macro história, escolhemos como objeto de pesquisa o jornal A Comarca Penapolense, da cidade de Penápoles, hoje já extinto, mas única imprensa escrita na época, dentro do período de 1963 a 1965, ou seja, como testemunha ocular das mudanças de um governo Democrático e populista ao regime de ditadura militar. Qual foi sua postura diante das grandes modificações que o Pais estava subordinado.
Em 1963 João Goulart então Presidente do Brasil, havia sido restituído ao poder pleno por meio de um plebiscito popular contra o Parlamento que limitaria o poder do presidente, mas a população estava visando as Reformas de Base prometidas pelo Governo que incluíam reforma agrária, reforma bancária entre outras com objetivo de dar continuidade ao desenvolvimento econômico e ampliar o mercado interno. Ocorre que neste período havia também a Guerra Fria que exigia dos países periféricos uma posição capitalista dos EUA ou comunista da URSS, o chamado alinhamento.
A viagem de Jango a China, as Reformas de Base e o apoio recebido pelo PCB deram a entender aos latifundiários, banqueiros e setores industriais que havia uma grande possibilidade da implantação do comunismo no Brasil.
A economia não estava bem havia uma inflação de 100%, o Pais não crescia desde 1960, tropas de soldados subalternos exigindo maior participação política criaram as pré-condições para o Golpe.
Em treze de março de 1963 no Rio, na Central do Brasil, houve um comício que reuniu mais de 300 mil pessoas para ouvir o presidente falar das Reformas de Base e para convocar uma Assembléia Constituinte. A resposta veio rápido, pois em 19 de março junto com a igreja católica e a oposição ao governo ocorre a Marcha de Deus pela Família, que só em São Paulo reuniu mais de 400 mil pessoas. No dia seguinte era dado o Golpe Militar e o Brasil entra na Era das Ditaduras Militares baseadas na Doutrina de Segurança Nacional que era: crescimento econômico dentro do capitalismo internacional, controle da sociedade civil por parte do Estado e racionalização da administração do Estado. Esta política foi criada por estrategistas norte-americanos com objetivo de conter o comunismo. Havia uma articulação por meio de propaganda em massa e outras ações coordenadas para desestabilizar o governo.O jornal O Estado de São Paulo e A Tribuna de Carlos Lacerda também apoiaram o Golpe num primeiro momento.
O primeiro militar no poder foi Castelo Branco, que junto com outros militares objetivando a liberdade de atitudes sem precisar de aprovação de possíveis opositores, decretam o Ato Institucional n° 1 que além de cassar deputados, limita consideravelmente o poder do Congresso.
Um Ato Institucional ocasionava o outro, o AI 2 extingue partidos políticos e implanta o Bipartidarismo com o Arena e o MDB.
Daí por diante uma sucessão de restrições e perda de direitos foram acontecendo, até o fechamento completo do Ato Institucional n° 5.
Conclusões
Durante esse período na cidade de Penápolis, a impressão que se tinha era que vivíamos num paraíso propício ao consumo, pois o que mais se vê no jornal são anúncios de geladeiras e automóveis mas traçando um paralelo em nível Nacional, o governo tenta recuperar a economia incentivando o mercado interno. Observamos também um reflexo da insatisfação com o governo que foi o fato de não haver uma única linha sequer de referência a João Goulart, mas a Adhemar de Barros, então Prefeito da cidade de São Paulo e futuro candidato a Presidência havia várias referências, mas tudo por que as eleições seriam em !965, e Adhemar já estava em plena campanha, emprestando dinheiro a várias cidades do interior, tanto que a Usina Hidrelétrica do Salto de Avanhandava, que abasteceria toda a região, foi construída com dinheiro do Adhemar e encomendada para o pai do proprietário do jornal, no caso o sr. Emílio Casasco, engenheiro da prefeitura de Penápolis , cujo no cargo dirigiu várias obras públicas.
O jornal se colocava numa postura neutra, chegando a declarar publicamente que não se envolveria na política nacional, dando preferência as notícias locais.
Ocorre que quando se falava em política nacional, sua abordagem era positivista com relação aos militares, podendo esta afirmação ser observada durante uma sessão na Câmara em que em 64 um oposicionista do prefeito, baseado na limpeza dos corruptos do AI 1, pede a cassação do prefeito, o acusando de gastos pessoais com dinheiro público.
O jornal faz uma campanha ferrenha pela Marcha para Deus pela Família, sendo que no interior inteiro foi visto como um evento imperdível com direito a aviões e participação de autoridades, como o Adhemar de Barros. As famílias participavam achando que a manifestação era religiosa sendo conduzidas a engrossar um movimento que não sabiam que estava ocorrendo, principalmente no interior, onde leitores interessados e estudantes que queriam participar dos movimentos buscavam informações em fontes variadas, não na localidade. Apesar da omissão do jornal, havia estudantes penapolenses engajados e revoltados com as mudanças sociais, tanto que Geraldo Vandré, grande cantor e compositor da MPB perseguido e exilado durante o regime, segundo o jornalista e escritor SANTOS, L. A.( Penápolis Contra a Ditadura militar: Um cotidiano resistente, 2007) se refugiou por alguns dias na casa de um estudante em Penápolis.
Para Pierre Bourdeu a prática jornalística é a de informar, porém esta máxima não é imparcial, pois mesmo tende de haver uma sintonia entre o jornal e o profissional jornalista, este fica subordinado as exigências do proprietário do jornal, que representando seu grupo, ou seja, o jornal mostra o que deve ser mostrado, de acordo com a ideologia daquele grupo.

Um comentário:

Ana Paula disse...

Gostaria de agradecer ao comentário do anônimo e me desculpar, pois estou com alguns problemas no blog, e não consegui salvar seu comentário, mas agradeço o elogio.