17 de jul de 2011

Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Hollanda

Me aventurei na difícil tarefa de compreender melhor o clássico livro Raízes do Brasil, escrito em 1936 por Sérgio Buarque de Hollanda, um dos mais importantes historiadores brasileiros, onde, profundamente busca o real, o Brasil verdadeiro doa a quem doer, mostra um pais feio, desigual, onde a fome está ligada ao passado agrário. Desvaloriza valores ibéricos, vê na colonização e na vinda da família real portuguesa, a fonte de nosso atraso. Crê num Brasil industrializado e democrático, onde, trabalho com mérito é modernidade e progresso. O livro requer paradas para reflexões, assim, vou postar por capítulos, ou por etapas. Na obra o autor identifica nas nações espanholas e portuguesas uma cultura de personalidade. Suas virtudes ou seu valor pessoal como homem, provém da menor dependência possível do outro, visão sustentada por poetas, moralistas e até pelo governo - a sociedade pensa desta forma. Cada qual é filho de si mesmo e sua competência é o que te trará estabilidade. 

Se fizermos uma pequena reflexão desta afirmação, observamos que são nações que desde cedo se lançaram ao mar em busca de aventuras e colonizações, e que esses homens quando voltavam, eram recebidos e ovacionados como heróis. Fica mais fácil assim entender essa cultura da personalidade.

Entre iberos os níveis hierárquicos eram pouco, ou quase nada respeitados. Diferente dos europeus, as estruturas sociais eram frouxas, facilitando a mobilidade social fosse por casamento ou por enriquecimento (são natos comerciantes, enriquecem fácil).
Na Europa, a ascensão de uma nova burguesia,  pra se sustentar, muda toda uma mentalidade vigente. Derrubam monarcas, criam na religião o enobrecimento pelos esforços de trabalho. O trabalho não é esforço de escravo, ele trás o pão de cada dia, é nobre, Deus recompensa quem se esforça. Foi o ocorrido no protestantismo sustentado por Calvino seguido de Lutero. A riqueza vem do merecimento do trabalho. Por não haver resistência na mobilidade social, em Portugal e Espanha não houve necessidade da criação de uma nova mentalidade. Individualistas, suas decisões dependem de seu livre arbítrio, atributo que não beneficia o coletivo. Por não pensar coletivo, deixam as decisões para "alguém" organizar a sociedade, e neste quadro o governo se apresenta como unificador, mantendo a política como algo externo, força maior exterior, não algo diretamente ligado a vida das pessoas que deveriam participar das decisões (perfeitas pré-condições para o aparecimento de ditaduras militares). Nesta visão individualista fica inviável pensar no trabalho voluntário voltado ao coletivo. Para isto acontecer tem de haver uma harmonia entre os interesses, e segundo o autor, esta harmonia só ocorre quando há vinculação de sentimento, mais do que relações de interesse - no recinto doméstico ou entre amigos. 

Pausa para reflexão. Eu acho que alguns leitores agora arrepiaram com a afirmação, mas, pensemos... 
Já ocorreu de você estar comendo numa lanchonete e alguma criança te pedir um lanche e você não dá (pensa assim...ai, o governo tem que ajudar, se todos derem dinheiro eles gastam com drogas, etc,etc...Isto é um problema CRÔNICO social, ou seja, todos os dias olhamos esta cena que não comove mais, certo?). Muito bem, porém, lá no Rio Grande do Sul as chuvas alagam as cidades e devastam casas e arrastam tudo deixando milhares sem casa, sem comida, sem dignidade, e o Brasil (que Deus conserve) manda ajuda de todos os lugares, até pessoas de baixa renda participam.
Quer outro exemplo, as procissões. Os tapetes de borra de café, casca de ovo feitos durante a procissão de Corpus Cristi, são verdadeiras obras de arte. E no enterro daquela tia chata, que quando o parente liga e diz: "Fulana morreu", saem todos correndo praticamente deixando a bolsa pra trás, como se a defunta ainda precisasse de primeiros socorros.
Eu não disse nada, e não vou dizer, peço apenas pra você refletir com seus botões.

A exaltação extrema da personalidade, paixão principal que não tolera compromissos, vê quase como heroísmo a renúncia e essa personalidade em vista de um bem maior. O resultado é parecer não haver outra sorte de disciplina que não seja a centralização no poder e a obediência. 
Neste primeiro capítulo Sergio Buarque conclui que " A experiência e a tradição ensinam que toda cultura só absorve, assimila e elabora em geral os traços de outra cultura, quando esses encontram uma possibilidade de ajuste aos seus quadros de vida". {Pensemos nos ameríndios, nos Incas, Astecas, que não absorvendo a nova cultura foram dizimados até sobrar somente pó e vestígios desse povos}
No caso brasileiro, mesmo que desagrade aos nossos patriotas, a tradição espanhola e principalmente a portuguesa, estão bem vivas para nutrir uma alma comum. Podemos dizer que de lá nos veio a forma atual de nossa cultura; o resto foi matéria que se sujeitou, mal ou bem, a essa forma. 

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